segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

ELEGIA FAMILIAR



                                            "No domingo da Família”

Na aridez do insondável mundo social
Os mendicantes olhos, procurando alguém
Que dê sentido lógico e sobrenatural,
Corporizam a vida que o destino tem.
P´ la própria natureza, que supõe o perigo
Onde a mulher e o homem tem cumplicidade,
Há lugar em si mesmo na veracidade
Do sustento e defesa num qualquer abrigo. 

Terá sentido o pai, terá sentido a mãe,
Terão sentido os filhos - neste mundo atroz -
E até as próprias coisas naquele vai-e-vem
Co´ a frágil segurança de uma casca de noz?
Onde terão lugar o alicerce e a sorte
Que, só por si, se complementam na essência
Da pura espécie humana em sua consistência,
Podendo contornar a prazo a mísera morte?

Quando será que o ser humano se apercebe
Que a sua mente, sempre esvaziada e fria
Sem coração e com o seu espírito imberbe,
Vagueia no deserto por todo o santo dia?
Quando será que a luz que animava a alma
Colectiva, da casa e dos avós firmeza,
Garanta todo pão e vinho sobre a mesa
E reorganize na família a união e a calma?

Ó Maiorais, ó Leis, ó Sábios desta terra -
Se é que vós tendes alguma razão de ser
E ao mesmo tempo não vislumbrais esta guerra
Cujos contornos ninguém está a perceber.
Para quando o saltar da profunda barreira
Da desumanidade, que é aquela vil imagem
Que vos embala a cada hora na viagem?
Quando será que rasgareis vossa cegueira?

Parai, escutai bem e, já agora, indagai
Aqueles remédios que é urgente reencontrar:
Se virdes que há mister cortar vaidade, cortai;
Governai, sim, se houver mister de governar;
Fazei justiça se para tanto houver mister;
Fazei partilha com a maior seriedade.
E se derdes o exemplo, com frontalidade,
Toda a Nação terá a Família que quiser!

Frassino Machado
In ODISSEIA DA ALMA


terça-feira, 16 de setembro de 2014

APOCALIPSE NA AMÉRICA


                      
“Memorial 11 de Setembro"


Tempus, o mores, oh quantos horrores
Ondulam, sem que não grite ninguém.
Riem favores com seus desamores
Riem as feras com tantas quimeras
E o bicho homem as chamas consomem
Se houver deveras quem lhe faça esperas…

Grandes esperanças, ilusões e danças
Encenam prendas, desertos, prebendas,
Males e andanças em poucas pujanças.
E o ser humano, sem alma, tirano
Abre nas sendas, tragédias tremendas,
Sereno e ufano em si ano após ano!

Oh, quantas torres destruirão senhores?
Oh, quantas flores sem gémeos e amores?

Frassino Machado
In RODA-VIVA POESIA

sexta-feira, 14 de março de 2014

REQUIEM À MUSICALIDADE POÉTICA


"Aos poetas sonhadores II”

Não se trata, ó poetas, de mera abstracção
Esta avalanche desmesurada de poesia
Num caudal pluvioso de banais escritores
Que não sendo poetas afirmam que o são
E assim vai a poética nesta desarmonia
À procura de achar o leme dos seus valores.

Há sílabas, palavras e frases com sentido
Na fluência que é própria de toda a linguagem
Mas, todavia, não chamemos a tudo verso
Pois que o sentir da alma ficará pervertido
Pelo recurso palavroso de vil mensagem
Que em conceito poético fica controverso.

A alma da Poesia tem sempre movimento
Na musicalidade que lhe vem da estética
E até das formas corporais de composição…

Mas não, o que se vê no quotidiano evento
Do mundo literário a que se chama poética,
É apenas e só um REQUIEM de presunção!

Frassino Machado
In RODA-VIVA POESIA

quarta-feira, 12 de março de 2014

CONFISSÃO DO POETA



                                               “Aos poetas sonhadores”

Sou poeta e me confesso
Das minhas exultações
Com sentimento disperso
Navego por emoções.

Sou poeta e reconheço
Ser tão pouco entre os demais
Pois cada dia recomeço
Outras metas desiguais.

Sou poeta e considero
Ser diferente na verdade
Mas ao sê-lo desespero
Nesta minha qualidade.

Sou poeta e me confirmo
Como poeta sonhador
Mas aceito e muito estimo
Doutros poetas o valor.

Sou poeta e me arrependo
Da minha triste vã glória
Por isso hoje me emendo
Dando a mão à palmatória.

Sou poeta mas quero ser
Igualmente um aprendiz
Outros poetas eu vou ler
Pra quebrar este verniz.

Doravante aceitarei
Haver poetas noutros trilhos
E dos seus poemas direi
Que os encaram como filhos.

Todas as flores são belas
E da natureza expressão
Quantas poesias singelas
Por certo também o são.

Da nobre poética o mundo
Tem horizonte sublime
O poeta sonhando fundo
A sua paixão exprime.

A Poesia é insondável
Cada poema é uma ternura
O seu crescer é admirável
E dá corpo à aventura.

Ao ser poeta sou diferente
Vejo as coisas com espanto
Todos os poetas são gente
E fazem poemas de encanto.

Cada poesia é uma arte
Tem sentido e tem momento
Se és poeta, comigo reparte,
Este mesmo sentimento!


Frassino Machado
In ODISSEIA DA ALMA


terça-feira, 11 de março de 2014

POÉTICA



«Amor supremo, suprema arte»

Pela consciência do contexto universal
Passa por nós do amor supremo a Dimensão
Que no brilho do agir fez tudo o que é real
E ao próprio homem tornou belo o coração.

Nas grandes coisas dá sentido à emoção
Levando a compreensão ao mundo natural
E nos humanos feitos, à luz da razão,
Concede ao poema uma força genial.

Amor supremo, suprema arte a dos poetas,
Eis aqui toda a plenitude do Universo
Numa torrente de palavras feitas verso…

Há que cantar, até nas coisas mais discretas,
O verdadeiro Amor com alma generosa
Na partitura de uma Lira graciosa.

Se o Amor supremo se tornar suprema Arte
Tu, ó poeta, serás feliz em toda a parte!

Frassino Machado
In ODISSEIA DA ALMA


domingo, 9 de março de 2014

MULHER-ÁRVORE



«Dia Internacional da mulher-explorada»

És a mais bela árvore de feição soberana
Que alguém plantou neste admirável Universo
Entre os singelos seres de cariz complexo
Alguma vez criado p´ la razão humana.

Teu corpo em espiral assente em chão diverso
Contrasta firmemente em amplo panorama
E cada frágil ramo como porcelana
Dá vida às folhas que renascem no teu berço.

Cobrem-te as flores desta fresca primavera
E matas com tua água a sede dos amantes
Esquecendo-se eles da tua vida austera.

De ti brotam momentos sempre confiantes,
Naquela esperança que às vezes é severa,
Tornada sonho entre os sonhos suplicantes.

Ó mulher-árvore deste vergel manancial
Faz que os teus frutos possam tornar cambiantes
Os negros corações das mentes de cristal.


Frassino Machado
In JANELAS DA ALMA


terça-feira, 4 de março de 2014

AS MÁSCARAS DO MUNDO (*)


À memória de
Anna Politkovskaia

Passam no Palco do Mundo
Do nascer ao pôr-do-sol
As horas do mal profundo
E as vidas em arrebol.

Passam no Palco da Vida
Desde o ventre até à tumba
As pancadas da desdita
E os desvios na penumbra.

Passam no Palco das Gentes
Do Oriente ao Ocidente
As venturas indigentes
E os projectos sem presente.

Passam no Palco das Modas
Desde as vilas às cidades
As paixões com brutas rodas
E o desfile das Vaidades.

Passam no Palco do Estado
Desde as tendas aos palácios
As propostas do Embuçado
E o discurso sem prefácios.

Passam no Palco das Feiras
De manhã até à noite
As bancas das vendedeiras
Num rodopio de açoites.

Passam no Palco dos Astros
Pela aurora matinal
As estrelas com seus rastos
Em alterne desleal.

Passam no Palco das Trevas
Entre pântanos abissais
As Cruzadas “medievas”
Em chacinas magistrais.

No Palco dos Potentados,
P’ ra terminar esta saga,
Passam orgias e fados
Em triste noite aziaga.

E assim as máscaras do Mundo
De frustradas intenções
Cavam vazio profundo
Em todos os corações!

Frassino Machado
In MONTE ALVERNE
          


(*) – Poema premiado em Itália, no Concurso «Pensieri in Versi 2006»

www.frassinomachado.net 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A VOZ DO SILÊNCIO



                                “Aos faroleiros
                                 da Berlenga”

Vigilantes do fim ali plantados
Olhando a terra, olhando o mar além,
Voz do silêncio e alma redobrados
Na música do vento que vai e vem.

Passam as horas, dias renovados,
Há horizontes vistos por ninguém
Gaivotas gémeas, corvos desgastados,
E de noite o clarão luzindo bem.

O Jacinto me disse que as gaivotas
Largavam a sua voz naquela praia
Sondando a imensidão medindo as rotas
Brancas penas em asas de cambraia…

Toda a noite o silêncio uiva, o mar ecoa,
Na memória faroleira a navegar
Qual estranha loucura que ressoa.

Porto de abrigo, náufragos que foram,
Esperanças e promessas que demoram!


Frassino Machado
In RODA-VIVA POESIA


A VELHA DA CANTAREIRA



                            "A Raul Brandão,
                             Pensador do mar…”

Chegado pela tardinha do Alto-Nespereira,
Passou Raul de humor um pouco angustiado 
Naquele mar da Foz, bastante assoberbado,
Cujas ondas varriam toda a Cantareira.

Crestada pelo tempo, com gesto eriçado,
Indiferente à maré de inverno costumeira,
Olhou aquela velha que ia passageira
Vomitando impropérios contra o mar irado.

- Ai Tóino, Tóino, má raios partam o mar,
Ai home dum cabrão que foste no batel
Deixando-me sem pão e a saber a fel…

- Ai Tóino, Tóino – e a velha sempre a gritar –
Se este maldito mar com fúria te engoliu
Raios me levem esta sorte que me fugiu…

E o bom Raúl continuou meditabundo
Desfiando, um a um, os males deste mundo:

- Ai velha de uma cana, com filhos a rodos,
E aquele ingrato mar que os levou a todos!


Frassino Machado
In MUSA VIAJANTE


O INGÉNUO ESTADO SOCIAL



                             "Aos desprotegidos”

Esqueçam-se daqueles sonhos já passados
Da odisseia triunfal dos seres humanos;
Esqueçam-se daqueles combates já travados
E das vidas ceifadas pelos vis tiranos.

Esqueçam-se daqueles tristes desenganos
E dos princípios ancestrais estrangulados;
Esqueçam-se dos códigos vãos e mundanos
Que devastaram os corações desenraizados.

O sangue derramado nunca germinou
Pois os projectos se perderam na voragem
E na negra ambição do poder instituído…

Não foi a ideologia social que falhou
Muito menos a pura alma da mensagem
Mas apenas, e só, o homem pervertido.

O mal já vem de muito longe e como tal
Era uma vez o ingénuo “estado social”!


Frassino Machado
In JANELAS DA ALMA